terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Carta XXX

Adeus meu bebé.

Tentei sempre ao máximo adiar esta despedida... Mas quando penso em ti... Parece mentira.

Parece que ainda aqui estás. Comigo. Que ainda vens a correr a sorrir para mim. Que me queres falar com os olhos e dizer que me amas, tal como eu te amo e sempre irei amar.

Parece que foi tudo um pesadelo muito mau e que tardei em acordar. Que foi um drama dos de baba & ranho. Que parecia não ter fim.

Mas não. Foi tudo tão real. Tão cruel. Tão doloroso.

Queria que voltasses a morder-me o pé. A maminha. A lamber-me a cara e a atacares-me as pantufas. Queria sentir o teu pêlo de novo na minha mão. Afagar-te o lombo. Trautear contigo à volta da mesa a ver quem era mais rápido. E eu... quase sempre te ganhava. Fazer sons estanhos para tu abanares a cabeça e ladrares para mim. Correr contigo na praia. E irmos contra as ondas. Eu vestida e tu com a coleira vermelha. O mar é nosso. A vida era tua, toda tua. E eras livre.
Lembras-te de como eu gritava por ti no jardim? Os vizinhos deviam achar-me louca. Chamava-te príncipe e que eras o cão mais lindo do mundo. E és. Sempre serás. E a gritar-te, a implorar-te para me fazeres um filho, para grande embaraço da minha mãe. E que sim, quando fosses mais velho e tivesses juízo para acasalar, eu quereria um filhote teu. Dois até. Para ter na minha futura casa.

Lembras-te da minha prenda quando completaste 1 ano? Era dia de semana, e o Fábio teimava em surfar nesse dia. Fiz questão que te levasse pois era o teu aniversário. E ficavas comigo enquanto ele comia as ondas com a prancha. Mas tu perferiste ir para a água, como seria de esperar. E eu amei-te ainda mais por isso.

E com um apenas um ano... Não apenas... não merecias.

Parecia pre-destinado.

Um funeral de uma professora de ciclo marcava a minha agenda para esse dia... Tinha decidido faltas às aulas inclusivé. Mas os gritos da minha irmã vieram acordar-me. Já estavas no veterinário por essa altura. Ela gritava por entre lágrimas que tinhas morrido, que estavas morto e que a nossa mãe te tinha levado para o veterinário. Levantei-me de um salto e desci as escadas de pijama, igualmente aos berros. Contestei-lhe. Gritei-lhe. Perguntei vezes sem conta o quê, mas tinha ouvido na perfeição à primeira. E quando dei de caras com o jardim, desfiz-me em lágrimas por ver tanto sangue teu no chão e o facto da tua fiel companheira estar tão indiferente à situação intrigou-me. Pensei que te tivessem feito mal. E ainda hoje penso que sim.

Telefonei à minha mãe de imediato e perguntei desesperadamente e a chorar que se passava, onde é que tu estavas e que se passava contigo.

Ela deu-me todos os promenores e dizia que falava melhor comigo assim que chegasse a casa. Ela demorou e eu, depois de momentos fortes de angústia, comecei a ler o primeiro livro que me apareceu à frente. Marley & Eu. Irónico, no mínimo. Sabias que assim que soube que morreste, simplesmente deixei de o ler? Mas andei cm ele na mala durante todo o processo. Como o amuleto que não deu sorte.

Fiquei tão feliz quando voltaste para casa por demonstrares melhorias que saí e fui celebrar com os meus amigos numa festa de praia. Mas no dia seguinte estavas de novo frustado. Não conseguias sequer deitar-te. Ficavas mais cómodo de pé, mas por não conseguires comer, estavas fraco. E eu só queria que comesses um bocadinho. E que bebesses água. Daí ter insistido tanto contigo. Desculpa bebé.

Lembras-te do olhar que me fizeste? Um dos últimos que tivemos face to face? Nunca me irei esquecer dele. Chorando, dizias que me amavas. Eu sei. Estavas triste e doente. Só desejavas morrer... e com o tempo apenas deixaste de lutar. E voltaste a ser internado no Hospital Central Veterinário.

No total foram duas semanas e meia na maior dor, pânico, revolta e... tudo o que de pior pode sentir um coração... que se tornou vulnerável. Na madrugada de 27 de maio de 2009 uma chamada veio mudar o rumo da noite.

Tenho o hábito de dizer que toda a gente morre de madrugada, inclusivé que dava um bom título para livro ou filme... mas é verdade. Viste a minha avó, dois meses depois? Madrugada. E a tia Maria? Madrugada. E tantos outros...

A minha mãe não dormiu mais o resto da noite. Mas teve coragem de ir trabalhar. Eu acobardei-me. Eram quase 9h quando ela abriu a porta do meu quarto e disse-me, a chorar, que tinhas morrido. Descreveu-me os promenores médicos e abraçou-me. E eu decidi ficar horas na cama sem me mover. A chorar e a recordar-te. E não fui às aulas. Chamei o Fábio, que me consolou durante toda a tarde. E eu só chorava e via as tuas fotos e vídeos.

Sempre me perguntei porque raio tinhas sempre essa tua piloca de fora quando estavas à minha beira. Nunca entendi. Depois deu-te a parvoeira da grossa e começaste a fazer movimentos pélvicos com as tuas mantas... mas antes tinhas que as amontoar ao teu jeito. Sempre foste uma alma livre, não é?

Como eu.

Mas sabes? Dizem que não se ama um animal como se ama uma pessoa. Mas eu amei. E ainda estás cá. Sempre estarás. Porque vou-te sentir sempre em mim.

Porque, meu bebé, por ti a saudade cresce e fica. Sempre.



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Obrigada mais uma vez! :)
E desculpem o atraso nas cartas. Todas serão postadas, não se preocupem.
E continuem a mandar!

8 comentários:

Adri disse...

sem palavras!!!
um beijo

Soraia Silva disse...

fogo, parecia que estavas mesmo a dedicar esta carta a uma pessoa... nos inicios até julguei que sim, mas mal li "veterinario", vi logo que era para um animal...

gostei muito da forma como a carta está escrita (bem escrita).

bjo

katie. disse...

Dói tanto perder um amigo de 4 patas, é como perder uma parte de nós, alguém da nossa família... no final, e depois da dor, ficam as boas recordações, que tenho a certeza que foram mais do que muitas. Beijinho Inês Sofia*

Luna disse...

Porra Sofia, puseste-me a chorar que nem uma miúda. Conheço tão bem essa dor...
Está lindo o texto. Fiquei com o coração apertadinho :(

Sabor Adocicado* disse...

Está lindo o texto... Trouxe-me tantas mas tantas recordações. Como compreendo a tua dor

Abelha Charlatona disse...

Uma carta realmente muito bonita :)

***

Sophie disse...

Obrigada doce Lua! :) *

E obrigada bloggeiros!



Um beijo *
Voltarei em breve...

Joana Macedo disse...

aiiii, puseste me com a lagrima no olho *.*