quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Carta LXV

Sabes,
Não há muito tempo disse-te o que sentia, ou pelo menos o que pensava que sentia, um conjunto de pensamentos, baseados em actos e emoções baseados naquilo que foi um passado que vou querer recordar. Por mais que queira, tu não paras de me assombrar, continuo a pensar em ti, não tanto nem com tanta intensidade como há uns meses, mas com um misto de carinho, mágoa e saudade. Apesar de nunca me teres feito sentir mal, e que regrasses grande parte da tua vida para me fazer feliz todos os dias, e em todos os segundos desse dia, nunca me senti o suficiente para ti sabendo que a culpa disso acontecer sempre será minha e nunca tua, por nunca te ter dado o devido valor.
Ao leres esta carta, se leres, sei que não vais gostar, mas vou recordar sempre do que deixaste em mim. Deixaste marcas indeléveis, não rasgadas, antes trabalhadas com o mais fino recorte no meu coração, e como todos os grandes artesãos, soubeste trabalhar o meu coração para que eu pudesse gostar ao máximo de ti. Lembro-me de ti e das tuas mãos frágeis, mas bonitas, que apertavam as minhas com a força dos mares, e que apesar da diferença corporal pareciam que encaixavam simetricamente nas minhas. Lembro-me do teu sorriso, que hoje vejo sendo um feixe de luz surreal, ligeiramente a inclinar-se para um dos cantos da tua boca, sabendo que em seguida viria um ponto de luz nos teus olhos em forma de floco de neve que brilhava sempre que te via comigo. Nunca lhes dei o devido valor, às mãos e aos olhos, mas hoje reconheço-os como sendo carimbo lacrado do amor que sentias por mim.
Hoje se calhar lês o texto, e dás-me exactamente o que é necessário para mim: uma dose enorme de realismo e pragmatismo, tu vai ignorar, se pudesses dirias para seguir em frente, que o tempo de gostar de ti já acabou. E que não é bonito eu sujeitar-me a isto, a esta saudade crua que encontro na escrita, para demonstrar os pedaços de ti que ainda ficaram em mim.
Não quero que voltes para mim, não era justo, como nem sequer era minimamente justo eu pedir-te para seres parte da minha vida, depois de nós termos tido um fim. Só quero que saibas que não te esqueci, que te sinto em mim, e que na cidade do Fado Saudade escreve-se com letra grande. *


...por Anónimo.

6 comentários:

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Senti um pequeno nó ao ler isto. Em tempos, daqueles que não volta, escreveram-me uma coisa muito parecida.
Bonito o texto

Beijinhos

Let´s go away the very white side disse...

O texto está simplesmente fantástico.
Faz bem amar, faz bem sentir saudade, faz bem dizer o que sentimos.
As vezes um simples gesto, demonstra todo o amor que essa pessoa sente por nós, talvez a valorizes agora porque sentes falta.
Vive a vida, valoriza o que tens de melhor, olha para o passado com uma saudade boa e olha também para o futuro com um sorriso.
Kinhas*

cyta disse...

Quem ama..., ama! mesmo com muita saudade

Sofia disse...

Gosto da maneira como o texto roça a tristeza e transborda saudade... é aquela história... as coisas tristes que se escrevem são sempre bonitas...

filipa's disse...

perfeito!
eu vi-me tantoo aqui.

Lila* disse...

Gosto tanto;)