quinta-feira, 15 de abril de 2010

Carta XXXVIII

Primeiro amor

"Quando amamos alguém, não perdemos só a cabeça, perdemos também o nosso coração. Ele salta para fora do peito e depois, quando volta, já não é o mesmo, é outro, com cicatrizes novas. E outras vezes não volta. Fica do outro lado da vida, na vida de quem não quis ficar ao nosso lado."
" No dia em que te esqueci", Margarida Rebelo Pinto



Finalmente decidi libertar as palavras que aprisiono no meu peito e que servem de protecção para todas as feridas expostas ao vento que ferem a alma e sacrificam o coração, que me mudam a mente e me corroem a reflexão. Não são carregadas de raiva, rancor, mas também não representam qualquer resto de compaixão ou pena, pois esses sentimentos há muito que me fugiram das mãos, desapareceram como se apagados tivessem sido, não há rasto deles ou cheiro, apenas vestígios da sua presença.
Há muito que calo a boca, tento não citar as frases ditas pelo coração, decoro frases, expressões e ironias, ensaio actos e sorrisos mas o olhar, esse espelho de alma, denuncia aquilo que sinto, os nadas que juntos se formam num tudo, que ocupam o vazio que sou.
Ainda guardo no bolso o "amo-te" que me escreveste, a tinta tremida que reproduziu o teu amor em palavras, no tempo em que eu ainda era o abrigo do teu mundo, a confidente nas horas perdidas e a amante nas noites vagas. Hoje não o leio incessantemente, decorei-o de tal forma que recordo cada ruga, expressão do papel que um dia dobraste e que ainda nele estão cravadas as tuas impressões. Essas tatuaram-se na minha pele e nas noites de lua cheia consigo ver a sua cicatriz, o reflexo da tua marca na minha alma, delineada e desenha na perfeição que corrói o meu coração e o faz sangrar silenciosamente.
Tudo o que te quero dizer é que intencionalmente feriste-me, foste amante e inimigo em simultâneo, amaste-me e mataste-me de tal forma que hoje não sei se ainda estou viva ou se vivo numa morte de espírito sem retorno. Cravaste no meu peito o mais duro dos punhais, o teu adeus, o fechar da porta da nossa vida, dos nossos sonhos construídos em anos que desvaneceram em meros segundos levados pelas lágrimas que escorreram infinitamente pelo rosto. Apagaste tudo o que era e deste-me um novo eu sem escolha, apenas com um estender de mãos deste-me e tiraste-me o tudo, no dia em que me abraçaste e proferiste o teu monólogo, a despedida, a última de todas aquelas que marcaram os nossos dias de paixão, diferente de todos os "até já", igual ao virar de página da história.
Hoje não és amor, és saudade que guardo na alma, uma parte de mim velha, carregada de rugas e expressões, a única coisa que me faz lembrar o que fui e que já não sou, um pedaço de história vivido e não esquecido, o carinho de te guardar no peito e saber que apesar de inimigo serás sempre o meu eterno primeiro amor.



5 comentários:

Violet* disse...

tá lindo o post!e as frases da MRP dizem sempre tanto =)

continua *

helder disse...

"...um pedaço de história vivido e não esquecido, o carinho de te guardar no peito e saber que apesar de inimigo serás sempre o meu eterno primeiro amor."

confronto de duas realidades, resta a dor...

tempo...

kuka disse...

Apaixonei-me por esta carta,linda,linda,linda e tão real.

Jo disse...

fodas**! este texto mexeu tudo ca dentro novamente. O poder de cada palavra, senti cada palavra como se fosse escrita por mim mas eu nao o conseguia escrever assim. Esta excelente, tao excelente que é real e doloroso

Sofia disse...

adorei... diz tanto!