quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Carta LI

À minha Super-Amiga
Cujo principal poder é estares sempre ali para me aturar.
(Mesmo quando o senso comum te diz que não faz mal se me mandares abater)

Eu odeio a merda das apostas, aliás, até acho que já falamos nisso, mas odeio-as menos quando não as perco. Nós temos esta aqui em casa que tem regras muito simples. Se nos acontecer alguma coisa durante o dia que dê conversa ao jantar para mais de três quartos de hora, nós temos que contar isso a alguém por carta. É tão parva. Eu quase que gostava desta aposta, eu sou a pessoa que janta virada para o relógio da sala, eu tenho uma imaginação fértil para me safar antes do tempo, eu recebo mais abébias que ninguém nesta casa. Eu basicamente fui vendo os outros a escreverem cartas atrás de cartas e até gozava bastante com eles, dizendo-lhes que o Eça também começara assim, que o Pessoa também tinha a mesma aposta com os heterónimos, que perdia sempre, e que foi com essas que conquistou a Ophelia, e até culminei sugerindo que escrevessem ao Pai-Natal. Depois perdi a aposta.
O que me matou foi aquela fantasia de conhecer o pai dos meus filhos no Dragão. Uma fantasia é suposto ser assim, louca, perfeita, inconcretizável. INCONCRETIZÁVEL (desculpa Camões, vamos fazer de conta que a palavra existe, sim?). Quando eles acharam que uma das minhas ideias mais rebuscadas e novelescas de sempre se concretizou, o assunto deu pano para mangas.
Cheguei ao estádio para aí antes meia hora, é costume, gosto de os ver a aquecer, dá para os aplaudir, pensar se o massagista faz a mínima noção da sorte que teve na vidinha, discutir quem vai jogar onde com o “trio de ataque” (Alcunha da minha autoria, são três portistas ferrenhos que já tem idade para serem meus avôs, são tipo amigos de infância ou assim, e que por termos lugares cativos dá por os ir conhecendo e a quem se senta sempre ao nosso lado). Para mim o jogo já começou ali. Quase em cima da hora vejo alguém novo, dá para reparar porque leva o bilhete na mão e olha para ele a cada dois passos, quando nós, habitués, já temos o nosso sítio mais que decorado. Interessante este “alguém novo”. Tu sabes. Lá sobe ele as escadas, escolhe a fila, escolhe a cadeira e senta-se, “Mesmo à novato”, pensei eu, “vais ter umas calças de cor diferente quando te levantares, à cor da VCI”. “Já vou ter as calças da cor da VCI, merda!”, resmungou ele enquanto eu contava as cadeiras que nos separavam e tentava perceber se era distância suficiente para não haver telepatia.
Depois ele reparou em mim. Talvez não devesse ter prestado tanta atenção à parte em que ele tentou sacudir alguma da sujidade naquela zona das calças. Ainda disfarcei, pessimamente, mas o Porto salva-me e entra em campo, aplaude-se, canta-se, e o jogo começa. E eu ouço logo isto, “Tu deves detestar futebol, porque os jogadores caem de cú, sujam-se, mas não estão ali 10 segundos a sacudir aquela zona”. “Wow” quase gritei eu. Aquilo pode parecer à partida parvo, mas lá fez-me rir, e depois como não queria ficar por baixo, saiu-me um “Muito bem, foste a primeira pessoa a usar a palavra cú neste estádio sem ser num insulto, acho que até tens um prémio para levantar à saída”...vá lá, não foi nada mal. È que chegou mesmo rápido ao meu lado.
Ao intervalo já havia nomes e dados biográficos trocados, mas o resultado estava-me a deixar sem unhas, precisávamos de um golo, e ele descansa-me de uma maneira nova, basicamente o someone special encarna nele e explica-me o que é que temos de fazer para marcar. Eu devo ter feito uma cara engraçada de espanto, mas acho que não se pode ir ver outro jogo com ele, porque eu brilho quando acerto nas substituições, mas com ele ali a dar palestras do 4-3-3, não tenho mesmo hipótese.
Depois o tempo passava, e uma por uma, as alterações que ele tinha previsto foram sendo feitas e a equipa melhorando. Estava a acabar e nada. De repente pede-me para lhe tirar uma foto com o telemóvel. Como nunca lá tinha ido, queria levar um recuerdo para casa. “Que raio de altura foste escolher para tirar uma foto, e não me responsabilizo se isto ficar tudo tremido, vá olha para mim-” e do nada o estádio explode, a bola estava dentro da baliza sem nós fazermos a mínima ideia de como ela lá foi parar, estava tudo louco, e nós só podíamos festejar também…principalmente ele, que me abraçou e tenho quase a certeza que me levantou do chão, e só depois vi quem marcou.
Foi Ele.
E parece que se quebrou ali um feitiço, Ele tinha sido a última pessoa que me levantou do chão sem ser um piloto da TAP, e agora que aparece este “alguém novo” a fazer o mesmo (por uma carrada incrível de acontecimentos ideais, eu sei!), Ele arranja uma maneira incrível de estar lá…mas sabes, deve ter sido mesmo um feitiço qualquer que se quebrou, porque mesmo ele marcando O golo da vitória, que SÓ manda o estádio abaixo, é que eu descobri que já não o sentia em mim. É irónico, porque milhares de pessoas achavam ali o contrário.
Vim para casa quase aos pulos. Que raio de hora e meia mais cheia de coisas incríveis. E também com outra aposta feita. Sim, eu tenho a certeza que as detesto. Mas apostei com ele que só nos íamos ver fora dali se ele lá voltasse no próximo jogo. No jantar estou a contar todo este relambório, a ser bombardeada por todo o tipo de bocas foleiras e pedidos de descrições detalhadas, mas tinha o relógio controlado. Não ia escrever esta carta. Mas depois toca qualquer coisa na minha mala, era o meu telemóvel, mas com um toque que nem com a pior das “bubas” eu ia escolher. Fui ver o que era e li “Mensagem recebida: Monica Bellucci”. MONICA FUCKING BELLUCCI. Abri quase a desfazer os botões e nem reparei que li a mensagem em voz alta, “Já vi que roubas o telemóvel aos gajos giros que encontras só para que eles te liguem. Eu pago o resgate e amanha levo-te a comer uma fatia de um awesome bolo de chocolate e tu devolves-me essa coisa onde tens a mão. Liga-me. P.S. – Ah, eu sou capaz de dar o nome das mulheres de sonho dos meus amigos aos respectivos contactos.”
O meu telemóvel apareceu depois (estava ainda mais embrenhado naquela mala bege), porque este era só igual. Eu não roubo telemóveis. Nem de gajos giros. Mas durante um golo, naquelas condições, eu se calhar metia à mala o capachinho do Tony Carreira se o tivesse na mão. Eu perdi a aposta porque eles obrigaram-me a decidir, ou melhor, porque eles queriam muito decidir. Mas fogo, também já está (quase) paga! Só falta uma linha.
Falamos segunda :P (Tomaaaa!)

Beijos,
Ema


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Cheira-me que a Ema escreverá mais cartas!
E tudo só para o Manuel Luis Goucha não se apoderar aqui do cantinho :)

3 comentários:

Sofia disse...

Adorei a carta... que história gira :)

Vera disse...

Várias pontas soltas. Espera-se pelas próximas cartas da Ema.

(Nada de Gouchas por aqui!)

- Du disse...

Brutal :D