quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Carta XXXIII

Ainda te sinto em mim.

Tantos anos se passaram e ainda te sinto em mim. Ainda me respiras por cima do ombro. Ainda me falas por telepatia. Ainda me tiras o sono e me assombras o dia. Há dias em que vences pelo cansaço e em que consegues que volte a ser o que tanto tenho lutado por vencer. É triste, mas é verdade. De teu, ficou-se-me a angústia, o medo inexplicável, a timidez e a capacidade de ruminar “tudos e nadas”.

Levaste-me grande parte do que eu poderia ter sido. A minha alegria. A minha vivacidade. A minha espontaneidade. A minha beleza. A minha auto estima e a minha segurança. Os amigos que nunca cheguei a ter. Foram-se todos, com o tempo, com as lágrimas vertidas em solidão, em silêncio e às escondidas, e com a vida que me ajudaste a (des)construir.

Olho para trás e ainda te vejo com nitidez microscópica. Tu. Aninhado no chão do quarto a chorar como uma criança. Como uma menina. Aterrado com o que haviam transformado a tua existência. A sonhar com uma popularidade que nunca terias. Aterrado com os sempre recorrentes pesadelos. Literalmente, a rezar para que o dia de amanha não fosse igual e não te voltasses a sentir completamente de parte.

Eras um menino. Alguns diriam “da mamã”. Os teus calções cinzentos e pullover azul que tanto tentei apagar da memória ainda me atormentam. Aquela célebre cena de filme que entras no colégio e te deparas com uma turma completamente voltada para ti, a acusar-te de algo que nunca passou de invenção na cabeça de um inútil perverso e mau, ainda hoje, me massacra o ser.

Foste a criança mais agarrada à família que algum dia se viu. Eram o teu mundo, no mais profundo sentido literal. Eram tudo o que tinhas. Não tiveste amigos. Não tiveste festas de aniversário. Não tiveste namoradas quando toda a gente já tinha. Se hoje não tenho amigos “de infância”, devo-to a ti e ao teu silêncio. Se hoje não tenho recordações positivas da minha adolescência, devo-to a ti e à tua cobardia, ao deixares que te roubassem tudo sem que devolvesses o merecido troco. Sem dares luta e passares à frente.

Só conseguiste finalmente abrir asas aos 18 anos, quando te pudeste libertar daquele mundo, e foi muito duro o processo de aprendizagem. Apesar de sempre o teres escondido, tudo para ti era novidade, ao contrário de todos os que te rodearam. Sim, esses mesmos que te usaram enquanto lhes foste útil. Que te “alugaram” a sua companhia sob o preço de lhes fazeres os trabalhos para a faculdade.
O tempo passou. Cresceste até me tornares no que sou hoje, mesmo tendo vindo a conseguir apaziguar-te em mim.

À força de muito trabalho tenho conseguido esquecer-te. Um dia, espero, conseguirei dizer que já não te sinto em mim. Hoje não. Ainda tenho a tua “banda sonora”. Ainda me assomas quando menos espero. A tua insegurança ainda me tolda os movimentos quando te recordo.

Hoje tudo seria diferente. Ao que passaste hoje chamam-lhe bullying e merece honras de telejornal. Hoje tu não serias vítima de um conjunto de cobardes. Hoje tu não terias chegado onde chegaste.

Mas sabes o que ironicamente tem piada?

Tu. Que deixaste que te pisassem, que deixaste que te ignorassem, que deixaste que te gozassem, que deixaste tudo, hoje, não deixas a mim pisar-te, ignorar-te e esquecer-te. Há dias em que a tua voz de criança é ainda mais forte do que minha, de adulto afirmado.

Mas sei que sou mais forte que tu. Sei que vou recuperar tudo o que deixaste que me roubassem.

Sei que sim.
Espero que sim.



Por Tiago

5 comentários:

Mysterious Girl disse...

Infelizmente, revejo-me nesse texto muito mais do que queria. Ainda bem Tiago, ainda bem que dás por ti a esquecer esse passado...vais conseguir, acredita. Também estou a conseguir, aos poucos e poucos. Há quem não compreenda esses passos, há quem chame à falta de autoestima algo ridículo. Mas essas cicatrizes do passado, essas só o tempo pode apagar.

Beijinho*


PS: Lua, obrigado por partilhares :)

Mysterious Girl disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mysterious Girl disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Abelha Charlatona disse...

é bom ler o que os outrso sentem e perceber que tbm sentimos ou já sentimos isso .

Nuvem disse...

É muito bom ler esta carta, ver que há um futuro, que se pode sair de situações complicadas.
revejo-me em algumas situações e sei que se pode ultrapassar, mesmo que as marcas fiquem para sempre.
Parabéns pela coragem de a escrever